A os que vieren depois de nós

This reading was recorded by Alessandro Mistrorigo for Phonodia in Perugia, Italy, on the 2nd of Dicember, 2013.

Read by José Eduardo Degrazia on 2 December 2013

A os que vieren depois de nós

O que pensarão de nós
os que vierem depois de nós,
os que nos virem nas velhas fotografias
com nossas roupas coloridas,
com nossos ridículos,
com nossas utopias ridículas?

O que pensarão de nós os que virem na beira da praia
nas férias de verão em Tramandaí?,
ou envergando fantasias de carnaval,
ou vestidos de gala nos antigos bailes de debutantes,
ou uniforme de sodado ou guerrilheiro,
ou com roupas de hippie ou mochileiro?

O que pensarão de nós os que nos virem tão empolgados nos comícios. tão entregues à luta pela democracia e pelos direitos humanos,
tão apaixonados em tentar impedir que as florestas fossem queimadas,
tão mergulhados no mundo que nem nós dávamos conta
de que estávamos envolvidos na luta do dia a dia?

O que pensarão de nós
os que vierem depois de nós,
quando o mundo for melhor,
quando a vida for muito diferente,
quando a felicidade for para toda a gente,
quando todos forem iguais naturalmente,
quando não existir mais guerra, nem ódio, nem rancor,
quando a própria morte tiver sido vencida
(ou deixada para bem depois).
O que pensarão eles,
diante de nossos amuletos,
das nossas boinas Che Guevara,
das nossas bolsas andinas,
das nossas flautas e palavras de ordem?

Daqui a cem anos
(o mundo sempre continuará a existir, sim, senhor!),
alguém se debruçará sobre os nossos sonhos,
e nos verá risonhos, entregues à vida,
e nos encontrará, na energia cósmica do último livro eletrônico,
e dirá que a vida deve ter valido a vida,
e nos encontrará, na energia cósmica do último livro eletrônico,
e dirá que a vida deve ter valido a tempo antigo,
que eles não amaram e lutaram e vão.)

Pensando em tudo o que gozamos e sofremos,
folheando as nossas velhas fotografias desbotadas,
alguém, no século XXII, deixara cair uma lágrima,
e pensará que aqueles homens e mulheres,
na aparência ridículos,
e presos a ideias antigas e impetuosas,
que defendiam as baleias e os golfinhos,
não viveram e morreram e vão.

from Em Mãos III (Ed. L&PM: Porto Alegre, 2012).

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