Portuguese

Tomo café

Entre restos da última
refeição e xícaras sujas,
aqueço o café para a longa
espera dentro da noite.
Talvez alguém sinta
o homem a esvair-se
e bata alucinadamente à porta,
uma chuva caia repentina.
Provavelmente alguém estará rezando.
Algumas pessoas mostrarão indiferentes
mais um dia passado no calendário.
Abrirei a porta e a janela
para que os fantasmas entrem na sala.
----------------O café esfria.
----------------Quem me fará companhia?

A cada dia

Vamos morrendo um pouco a cada dia,
mas a cada dia vamos vivendo um pouco mais,
e o nosso sangue a bater em nossas veias
é um mar primordial que se derrama na praia
e nos alimenta com seus sons e seus sais.

Quando caminho na estrada ou quando amo,
sinto o meu coração bater forte no peito,
como um pássaro no ninho, ou um rio no leito,
feito um mar de vinho ou de leite.

Não me importa morrer dessa maneira,
pensando que a vida vale a sempre a pena,
vivendo em cada minuto a vida inteira,
vivendo a vida inteira em cada minuto.

Viver a vida num ritmo absoluto,
sabendo que a vida é alegria e luto.

Vivendo sabendo que a visa se esvai
faz de cada um de nós um ser especial,
e não importa se de noite um corvo
na nossa sala nos diz nunca mais.

Vamos morrendo um pouco a cada dia,
mas a cada dia vamos vivendo um pouco mais.

Poema urbano

No edifício
mil vidraças
refletem
meu rosto
sem graça.

Na fumaça
dos carros
meu travo
meu nojo.

No estojo
do apartamento
meu corpo
de cimento.

No bulício
da partida
minha ferida.

Poema das três moças no bar

Eram três moças sentadas no bar
tomando chope.
Eram três moças de boquinhas pintadas que conversavam e riam.
Eram seis olhos brilhando como céu estrelado.
Eram três moças que tomavam chope e fumavam
e riam indiferentes.
Eram seis mãos que não se preocupavam com o carinho de tua mão.
Eram três moças sentadas na cadeira do teu desejo inatingível.
Eram três moças encantadas como dentro de um espelho.
Eram três moças vogando como dentro de um barco.
E as rodelas d chope giravam nas ondas.

Poema da intimidade

----------------------------------------------Para Virginia

A intimidade é uma ponte de vidro,
um gesto apenas pode estilhaçar
a tênue relação entre dois seres.

Tenham cuidado com as palavras,
elas podem ser duras como o aço.

Cuidado também com os olhos
que podem destilar chamas de ódio.

Tenham, sobretudo, cuidado com as mãos.
É preciso que elas estejam sempre prontas
para o carinho, mas cheias de melancolia
como se fossem partir para sempre.

O poeta escreve

A poesia não dá meeting
--------------------------nem happening
está fora de qualquer mass media
------a poesia não dá Ibope
----------------não dá dinheiro
não dá prestígio
----------------não dá cargos remunerados
---------no governo
a poesia não tem nenhuma perspectiva
no mundo
-----em que vivemos
e provavelmente não terá nenhuma
serventia
----------------------no outro.
-------No entanto o poeta
----------------------escreve
----------------------por fúria
-------por absoluta falta
----------------------e penúria.
Por isso o poeta escreve
com total liberdade
sem preocupar-se com escolas
dados dedos duros.

O poeta escreve o sinal
do fim/início dos tempos.
A poesia apocalíptica.

O caminho inviolável

Nem todos somos maus.
Há em alguns uma certa ternura.
Noutros uma maneira especial de sorrir.
Nos cumprimentamos corteses na rua,
apertos de mão macios, leve mover de lábios.
E continuamos o caminho inviolável.

Naufrágio

-------------------------------Para Guilhermino César

O meu castelo
é o mar aberto
praias de areia branca.

Sou amante
de sereias
afogadas.

Faço meu jardim
de algas e anêmonas
e quimeras.

Vivo entre ameias
de cascos afundados
e arcas de tesouro.

Sou o que ficou
do meu próprio naufrágio.