Portuguese

Poema urbano

No edifício
mil vidraças
refletem
meu rosto
sem graça.

Na fumaça
dos carros
meu travo
meu nojo.

No estojo
do apartamento
meu corpo
de cimento.

No bulício
da partida
minha ferida.

Poema das três moças no bar

Eram três moças sentadas no bar
tomando chope.
Eram três moças de boquinhas pintadas que conversavam e riam.
Eram seis olhos brilhando como céu estrelado.
Eram três moças que tomavam chope e fumavam
e riam indiferentes.
Eram seis mãos que não se preocupavam com o carinho de tua mão.
Eram três moças sentadas na cadeira do teu desejo inatingível.
Eram três moças encantadas como dentro de um espelho.
Eram três moças vogando como dentro de um barco.
E as rodelas d chope giravam nas ondas.

Poema da intimidade

----------------------------------------------Para Virginia

A intimidade é uma ponte de vidro,
um gesto apenas pode estilhaçar
a tênue relação entre dois seres.

Tenham cuidado com as palavras,
elas podem ser duras como o aço.

Cuidado também com os olhos
que podem destilar chamas de ódio.

Tenham, sobretudo, cuidado com as mãos.
É preciso que elas estejam sempre prontas
para o carinho, mas cheias de melancolia
como se fossem partir para sempre.

O poeta escreve

A poesia não dá meeting
--------------------------nem happening
está fora de qualquer mass media
------a poesia não dá Ibope
----------------não dá dinheiro
não dá prestígio
----------------não dá cargos remunerados
---------no governo
a poesia não tem nenhuma perspectiva
no mundo
-----em que vivemos
e provavelmente não terá nenhuma
serventia
----------------------no outro.
-------No entanto o poeta
----------------------escreve
----------------------por fúria
-------por absoluta falta
----------------------e penúria.
Por isso o poeta escreve
com total liberdade
sem preocupar-se com escolas
dados dedos duros.

O poeta escreve o sinal
do fim/início dos tempos.
A poesia apocalíptica.

O caminho inviolável

Nem todos somos maus.
Há em alguns uma certa ternura.
Noutros uma maneira especial de sorrir.
Nos cumprimentamos corteses na rua,
apertos de mão macios, leve mover de lábios.
E continuamos o caminho inviolável.

Naufrágio

-------------------------------Para Guilhermino César

O meu castelo
é o mar aberto
praias de areia branca.

Sou amante
de sereias
afogadas.

Faço meu jardim
de algas e anêmonas
e quimeras.

Vivo entre ameias
de cascos afundados
e arcas de tesouro.

Sou o que ficou
do meu próprio naufrágio.

Não saberão de mim

Não saberão de mim
os estudantes tímidos e abandonados
nos quartos e pensões e repúblicas,
não saberão de mim
as costureirinhas pálidas
nos seus tugúrios de linhas e carretéis,
não saberão de mim
os condutores de locomotivas,
não saberão de mim
os mineiros de mãos de barro e carvão
nascidos na névoa viva no fundo da mina,
não saberão de mim
os camponeses queimados de sol
em plena colheita do verão,
não saberão de mim
as professorinhas insones
dos colégios de arrabalde,
não saberão de mim
as balconistas das lojas de delicatessen
envoltas em suas auras de sonho,
não saberão de mimas manicures
de mãos macias e olhos tristes.

não saberão de mim as manicures
de mãos macias e olhos tristes.

Não saberão de mim,
e, no entanto,
foi para eles que escrevi
os meus melhores poemas.

Motivo de força maior

Às vezes uma canção
de origem obscura me invade,
uma ventania da pampa,
uma nudez marinha de caracóis,
um sono de nuvem bojuda de chuva.

A fala da mulher de seios morenos
no meio da noite com besouros zumbindo
cor azul d céu ou verde céspede,
floresta de campânulas, campainhas sonoras,
e gritos intensos de paixão na noite da mata,
ritos de gatos de amores violentos em cima dos telhados,
vozes veludosas de violeiros nos bares de subúrbio,
gemido de menino doente tossindo na madrugada,
jogadores no pano verde jogando suas vidas no carteado,
bêbados improvisando cantos para a lua,
operário esperando o ônibus na madrugada,
E eu, atônito e desperto, escrevo
a ordem peremptória das musas,
psicografo a mensagem noturna
de uma força maior que me incendeia.

Esperança

Na solidão esperavas.
O fluxo do mar batia em teu peito,
enchia teus olhos de amarugem,
as mãos de algas, os seios de anêmonas.
Envolta no silêncio povoado de frêmitos e sombras,
na solidão habitada por sonhos, vozes e poemas,
esperavas a volta do veleiro que partira
levando nas velas o tempo e a esperança,
os castelos construídos de areia.