Portuguese

Não saberão de mim

Não saberão de mim
os estudantes tímidos e abandonados
nos quartos e pensões e repúblicas,
não saberão de mim
as costureirinhas pálidas
nos seus tugúrios de linhas e carretéis,
não saberão de mim
os condutores de locomotivas,
não saberão de mim
os mineiros de mãos de barro e carvão
nascidos na névoa viva no fundo da mina,
não saberão de mim
os camponeses queimados de sol
em plena colheita do verão,
não saberão de mim
as professorinhas insones
dos colégios de arrabalde,
não saberão de mim
as balconistas das lojas de delicatessen
envoltas em suas auras de sonho,
não saberão de mimas manicures
de mãos macias e olhos tristes.

não saberão de mim as manicures
de mãos macias e olhos tristes.

Não saberão de mim,
e, no entanto,
foi para eles que escrevi
os meus melhores poemas.

Motivo de força maior

Às vezes uma canção
de origem obscura me invade,
uma ventania da pampa,
uma nudez marinha de caracóis,
um sono de nuvem bojuda de chuva.

A fala da mulher de seios morenos
no meio da noite com besouros zumbindo
cor azul d céu ou verde céspede,
floresta de campânulas, campainhas sonoras,
e gritos intensos de paixão na noite da mata,
ritos de gatos de amores violentos em cima dos telhados,
vozes veludosas de violeiros nos bares de subúrbio,
gemido de menino doente tossindo na madrugada,
jogadores no pano verde jogando suas vidas no carteado,
bêbados improvisando cantos para a lua,
operário esperando o ônibus na madrugada,
E eu, atônito e desperto, escrevo
a ordem peremptória das musas,
psicografo a mensagem noturna
de uma força maior que me incendeia.

Esperança

Na solidão esperavas.
O fluxo do mar batia em teu peito,
enchia teus olhos de amarugem,
as mãos de algas, os seios de anêmonas.
Envolta no silêncio povoado de frêmitos e sombras,
na solidão habitada por sonhos, vozes e poemas,
esperavas a volta do veleiro que partira
levando nas velas o tempo e a esperança,
os castelos construídos de areia.

Dor

No meio
da rua
passam
os carros

Os gatos
e os ratos
nas latas
de lixo

E a louca
parada
na porta
da loja

De discos
girando
bêbada
e alada

A voz
desconexa
a dor
ancestral.

Deixa-me conduzir

Nada como te encontrar, poesia,
quando a linguagem dos homens parece baça,
e qualquer palavra me agride.
Eu, que não conheço os teus refúgios e sou
dos poetas da urbe o mais humilde,
repentinamente te encontro no ônibus,
ou caminhando sozinho em meio à multidão,
e tu me refrigeras a alma com teu canto,
a ponto de eu não merecer-te.
E sempre tens para mim uma palavra de carinho
como se eu fosse o teu menino.
Esqueço toda agressão sofrida
e deixo-me conduzir pelos teus caminhos,
tal um cego segue um cachorrinho.

Cidadezinha

Seis horas.
Na manhã recém-nascida
velhas beatas, sonolentas,
vestidas de preto,
dirigem-se à igreja.
O que seria das beatas
se não existissem igrejas?
sem rezas
sem santos
sem padres
sem bentos
pobres das beatas,
o que fariam no mundo?
Deixem-nas ir,
no fundo são boas pessoas.

Cidade estranha

Caminho pelas ruas
da cidade
e a tristeza
escala os muros
das velhas mansões.

Por trás das árvores
uma lua bêbada
sorri.

Entro num cinema
para ver gente:
está vazio.

Aos poucos se enche o cinema
com todos
os meus antigos fantasmas.

Chuva antiga nº 2

Guardo o limite do sono e do cansaço.
os espelhos interrogativos aguardam
outras imagens de rosas maceradas
em teu corpo adormecido.
Vozes calam reticências e apelos.
Por trás da vidraça é outra chuva a cair.
O navio negro sobe o rio que deságua
no meu peito e seu apito apunhala
as acácias e os girassóis.
Em reflexões estéticas vou perdido
enquanto teu corpo gira ao sol
escondido por detrás das nuvens e a chuva
ensaia no telhado sua patética melodia.

Chuva antiga

A chuva escreve
hieroglifos
na janela do ônibus.
Cada pingo
traça um sonho
cada sonho respinga
uma saudade
e desenha um rosto
na paisagem
que passa.
A chuva termina
o sonho acaba
e o ônibus vai embora
sem se importar
com teu rosto
e com meu sonho.

Canção do trabalho

Não só a natureza me encanta,
mas o trabalho dos homens,
dos mecânicos e dos ferreiros,
dos alfaiates e das costureiras,
dos garçons e dos bombeiros,
dos vendedores e dos jardineiros,
dos bancários e das cozinheiras,
dos motoristas e das engenheiras.

Cada homem amassa a argila
com suas mãos rudes e claras,
dando vida à matéria,
movimento ao inerte,
dando brilho ao opaco,
dando força ao fraco,
e alimento ao faminto.

Em cada casa, em cada canto,
em cada oficina, em cada porto,
uma canção se levanta
do homem que trabalha
e transforma a existência
com suor e o ritmo,
com a música e a dança,
com a verdade na garganta.