1979

El poema esboza al hombre

Calímaco. Epigrama II

Sí, yo aborrezco también el poema cíclico.
La gente cuyos días no esgrimen sentimientos.
Quien se abandona al río no como el nadador,
sino cual piedra. Detesto a la gente que
hace de sus pasos un círculo continuo.
Quien deja su noche caer tras la cortina,
o busca la dócil fatuidad de un placer doméstico.
Detesto a quien no se arriesga en la calleja
oscura. Quien no bebe, ni busca el gozar como
brilla un denario. Quien no ama los ojos
que circunda el khol. O los labios frescos del adolescente.
No bebo en la fuente común. Y cuanto es
vulgar o cotidiano me repugna. Busco siempre
lo hermoso, lo grácil, lo efímero también
porque pone en la belleza como un punto malvado.
Te puedo amar a ti, aunque seas de otro.
La noche me presta sus galas, y el sol todos
los atributos de su oro. Me gusta el cuerpo bello.
Y detesto lo común (ya sabéis) tanto como lo innoble.

Tomo café

Entre restos da última
refeição e xícaras sujas,
aqueço o café para a longa
espera dentro da noite.
Talvez alguém sinta
o homem a esvair-se
e bata alucinadamente à porta,
uma chuva caia repentina.
Provavelmente alguém estará rezando.
Algumas pessoas mostrarão indiferentes
mais um dia passado no calendário.
Abrirei a porta e a janela
para que os fantasmas entrem na sala.
----------------O café esfria.
----------------Quem me fará companhia?

Poema da intimidade

----------------------------------------------Para Virginia

A intimidade é uma ponte de vidro,
um gesto apenas pode estilhaçar
a tênue relação entre dois seres.

Tenham cuidado com as palavras,
elas podem ser duras como o aço.

Cuidado também com os olhos
que podem destilar chamas de ódio.

Tenham, sobretudo, cuidado com as mãos.
É preciso que elas estejam sempre prontas
para o carinho, mas cheias de melancolia
como se fossem partir para sempre.

O caminho inviolável

Nem todos somos maus.
Há em alguns uma certa ternura.
Noutros uma maneira especial de sorrir.
Nos cumprimentamos corteses na rua,
apertos de mão macios, leve mover de lábios.
E continuamos o caminho inviolável.

Naufrágio

-------------------------------Para Guilhermino César

O meu castelo
é o mar aberto
praias de areia branca.

Sou amante
de sereias
afogadas.

Faço meu jardim
de algas e anêmonas
e quimeras.

Vivo entre ameias
de cascos afundados
e arcas de tesouro.

Sou o que ficou
do meu próprio naufrágio.

Esperança

Na solidão esperavas.
O fluxo do mar batia em teu peito,
enchia teus olhos de amarugem,
as mãos de algas, os seios de anêmonas.
Envolta no silêncio povoado de frêmitos e sombras,
na solidão habitada por sonhos, vozes e poemas,
esperavas a volta do veleiro que partira
levando nas velas o tempo e a esperança,
os castelos construídos de areia.

Cidadezinha

Seis horas.
Na manhã recém-nascida
velhas beatas, sonolentas,
vestidas de preto,
dirigem-se à igreja.
O que seria das beatas
se não existissem igrejas?
sem rezas
sem santos
sem padres
sem bentos
pobres das beatas,
o que fariam no mundo?
Deixem-nas ir,
no fundo são boas pessoas.

Cidade estranha

Caminho pelas ruas
da cidade
e a tristeza
escala os muros
das velhas mansões.

Por trás das árvores
uma lua bêbada
sorri.

Entro num cinema
para ver gente:
está vazio.

Aos poucos se enche o cinema
com todos
os meus antigos fantasmas.

Chuva antiga nº 2

Guardo o limite do sono e do cansaço.
os espelhos interrogativos aguardam
outras imagens de rosas maceradas
em teu corpo adormecido.
Vozes calam reticências e apelos.
Por trás da vidraça é outra chuva a cair.
O navio negro sobe o rio que deságua
no meu peito e seu apito apunhala
as acácias e os girassóis.
Em reflexões estéticas vou perdido
enquanto teu corpo gira ao sol
escondido por detrás das nuvens e a chuva
ensaia no telhado sua patética melodia.

Chuva antiga

A chuva escreve
hieroglifos
na janela do ônibus.
Cada pingo
traça um sonho
cada sonho respinga
uma saudade
e desenha um rosto
na paisagem
que passa.
A chuva termina
o sonho acaba
e o ônibus vai embora
sem se importar
com teu rosto
e com meu sonho.